Tomar cápsulas da própria placenta virou moda entre mães americanas

Sara Pereira chega com um balde e uma mala de rodinhas. Coloca suas luvas cirúrgicas e limpa o balcão da cozinha e todos os seus apetrechos. A dona da casa, com seu bebê recém-nascido no colo, observa.

Sara traz uma panela de aço inoxidável vermelha, uma faca profissional, um “desidratador” e um “mixer”. Começa a cozinhar no vapor a peça que tirou da geladeira, e um cheiro de carne toma conta do ambiente. No cardápio, a mais nova obsessão de muitas mães nos Estados Unidos: placenta.

No caso, a placenta da produtora de TV Stacie Krajchir, 45, que pagou cerca de R$ 650 pelo trabalho de Sara. Cozido e desidratado, o órgão é triturado e transformado em cápsulas que, segundo quem acredita, combatem depressão pós-parto, ajudam na produção de leite e na reposição de hormônios.

A placenta, formada no útero e expelida durante o parto, é rica em nutrientes como ferro e vitamina B12. Na gravidez, realiza trocas entre o feto e a mãe por meio do cordão umbilical, alimentando, oxigenando e eliminando resíduos. Em muitas culturas, é enterrada ou incinerada. Muitos mamíferos ingerem a placenta –o que leva alguns humanos a copiá-los.

Os benefícios das pílulas nunca foram comprovados, mas o boca a boca transformou Sara em uma especialista requisitada em Los Angeles, com 20 a 30 clientes por mês (seus serviços podem ser requisitados no site Mommy Feel Good). A atriz January Jones, da série “Mad Men”, testou e recomendou seu trabalho em 2012. “Mas ela foi tão criticada quando revelou que estava tomando as pílulas que muitas celebridades que atendi não querem mais ter seu nome divulgado”, diz Sara, 34, que também é terapeuta corporal e massagista especializada em grávidas. “É um tabu, um conceito novo para o mundo ocidental, mesmo que exista há séculos na medicina oriental.”

“EU AMO PLACENTA”

Foi por recomendação de uma amiga que Stacie Krajchir conheceu Sara. “Estava nervosa. Achei que poderia ser sujo, cheio de germes. Mas ela parecia uma personagem do seriado ‘CSI’, transformou minha cozinha num laboratório.”

Depois de dar à luz um menino, Stacie teve a placenta empacotada e guardada num freezer do hospital, até uma amiga chegar com um “cooler” para transportar o órgão até sua casa. “Meu médico disse: ‘Você é uma daquelas mães doidas, não é mesmo?'”

Sara costuma entregar cerca de cem ou 200 cápsulas por placenta, que devem ser tomadas duas vezes ao dia por duas semanas. “Depressão pós-parto é muito comum. Se há algo que possa ajudar, elas querem tentar. A outra opção é tomar remédios tradicionais”, diz.

Também faz parte do pacote de Sara o cordão umbilical, guardado numa bolsinha de veludo, e uma solução em extrato alcoólico com um pedaço da placenta, que ela diz funcionar como um remédio homeopático.

NATUREZA SELVAGEM

Descendente de portugueses de Açores, Sara ouviu falar do uso de placenta quando fazia um curso de medicina chinesa. Lá, o órgão desidratado é misturado com ervas e outros ingredientes para tratar doenças diversas. Intrigada, Sara foi atrás do certificado da organização Placenta Benefits (PBi), fundada em 2006 em Las Vegas e hoje com 350 alunos.

“O encapsulamento de placenta vai se tornar parte essencial do processo de nascimento”, acredita Jodi Selander, criadora do PBi e famosa por fazer protestos em frente a hospitais que não liberam a placenta de suas clientes. Ela fundou o PBi após tomar as pílulas na segunda gravidez, por sugestão de seu acupunturista, para evitar a depressão que teve no nascimento do primeiro filho.

Jodi, cujo site vende camisetas com a inscrição “Eu Amo Placenta”, faz parte de um grupo de pesquisa sobre “placentofagia” do Departamento de Antropologia da Universidade de Nevada, liderado pelo antropólogo Daniel Benyshek.

Em 2010, ele publicou um estudo em que não foi encontrada nenhuma evidência de consumo de placenta por humanos, após o parto, em 179 sociedades ao redor do globo –apesar de a prática ser universal entre outros mamíferos, com exceção de golfinhos e baleias.

Neste ano, com ajuda de Jodi, ele entrevistou 200 mães que comeram a placenta (além das pílulas, há receitas de pratos, sucos e doces). Noventa e cinco por cento delas relataram experiências positivas e melhorias no humor, na produção de leite e no nível de energia. O próximo passo é realizar estudos com placebos.

“Cientificamente, não sabemos ainda dos riscos da placentofagia entre humanos”, diz Daniel. “A placenta é um órgão filtrador que, no caso de grávidas fumantes, pode conter substâncias prejudiciais se ingerida após o parto.” O ginecologista e obstetra Dani Ejzenberg, doutor pela USP, diz que, ao mesmo tempo em que não há benefício comprovado por estudos da ingestão da placenta, existem riscos reais no consumo do órgão, como a contaminação da placenta por micro-organismos depois do parto.

Além disso, diz, no processo de cozimento as proteínas se perderiam. “Muitos mamíferos comem a própria placenta por instinto. Estudos indicam que os motivos podem ser vários: porque estão famintos depois do trabalho de parto, para reduzir o odor e não atrair predadores ou para diminuir a dor [a ingestão da placenta poderia ter um efeito anestésico]”, explica o médico. “Mas o que é natural não é sempre saudável. Alguns mamíferos também matam o marido, outros comem os filhos. Não é preciso copiá-los.”

Fonte: SeraFina UOL

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